Hans Dohmann explica por que investir só em hospitais não basta para resolver a crise da saúde

Hans Dohmann explica por que investir só em hospitais não basta para resolver a crise da saúde

Gestor em saúde explica por que investir apenas em hospitais eleva custos e não resolve os principais gargalos do sistema de saúde.

A crise que afeta os sistemas de saúde em diversos países, inclusive o Brasil, tem colocado em evidência a necessidade de reavaliar as prioridades de investimento e gestão. Embora os hospitais sejam estruturas essenciais para o atendimento de casos complexos, para Hans Dohmann, especialista em gestão de saúde, focar exclusivamente neles não resolve os principais gargalos assistenciais nem melhora de forma sustentável os resultados em saúde. “A solução passa por fortalecer a atenção primária à saúde (APS) como eixo central para promoção da saúde, prevenção de doenças e gestão eficiente dos recursos”, afirma Dohmann

Organizações internacionais têm enfatizado a importância desse eixo. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgou recomendações pedindo mais investimentos na atenção primária como forma de alcançar melhores resultados sanitários e reduzir desigualdades. Segundo a diretora da OPAS, sem uma base sólida em APS, os sistemas continuariam a enfrentar sobrecarga nos serviços hospitalares e aumento de custos sem ganhos proporcionais em saúde populacional. 

O atendimento básico como estratégia central

O Brasil enfrenta desafios que refletem esse dilema estrutural. Pesquisa recente realizada pela Vital Strategies e Umane indica que 62% dos brasileiros não buscam atendimento médico sequer quando necessário, em grande parte devido à dificuldade de acesso à atenção básica ou à falta de médicos em regiões mais vulneráveis. Essa realidade evidencia que o problema não está apenas na capacidade hospitalar, mas na falta de um primeiro ponto de cuidado acessível, contínuo que seja eficiente. 

A atenção primária funciona como porta de entrada e coordenadora do cuidado. É onde se promovem ações de prevenção, se realiza diagnóstico precoce e se gerencia inteiramente o percurso do paciente no sistema”, afirma Dohmann. Ele ressalta que investir em equipes multiprofissionais, em tecnologias de apoio ao cuidado integrado e em programas de prevenção pode reduzir substancialmente a pressão sobre hospitais, além de melhorar a experiência do usuário com o sistema de saúde.

Enquanto isso, um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destaca que sistemas de saúde com atenção primária forte apresentam melhores indicadores de saúde, maior equidade no acesso e menor pressão sobre serviços hospitalares. Segundo a OCDE, a APS eficaz contribui para redução de consultas de emergência, melhoria da gestão de doenças crônicas e maior coordenação entre níveis de atenção, gerando efeitos positivos tanto para os pacientes quanto para os custos do sistema.

Uma visão que chega ao SUS

Estados e municípios que fortaleceram a APS têm observado resultados expressivos em indicadores de saúde como controle de hipertensão, redução de hospitalizações evitáveis e maior satisfação dos pacientes com o sistema. Para Dohmann, isso demonstra que a APS não é um elemento secundário, mas a espinha dorsal de um sistema de saúde sustentável e centrado nas necessidades da população.

Para além dos ganhos clínicos, a consolidação da APS também tem impacto direto na eficiência orçamentária e na organização das redes de cuidado. Ao resolver precocemente grande parte das demandas de saúde, a atenção primária reduz a pressão sobre emergências e hospitais, diminui custos associados a internações prolongadas e permite que os serviços de alta complexidade se concentrem nos casos que realmente exigem esse nível de intervenção.

“A crise da saúde não será vencida apenas com mais leitos ou tecnologia hospitalar. É preciso repensar o modelo de cuidado, colocando a atenção primária no centro das políticas de saúde”, conclui Hans Dohmann.